quinta-feira, 8 de setembro de 2022

O tempo em que o mundo acabou

 





Caro amigo imaginário...
Dizem que escrever faz bem... não sei. Talvez o exercício verbal engane a alma enquanto, entre lagrimas, se revele o que nos doi cá dentro.

Vai ser longo, desculpa.

A acumulação da situação da mãe, com o meu trabalho, pandemia e vida pessoal fizeram-me envelhecer muito em pouco tempo.


2019 - 

A mãe já apresentava alguns sinais de cansaço cerebral e demência.  
Nos últimos meses de 2019 fui com ela às consultas de psiquiatria em Coimbra (saía daqui de madrugada para os ir buscar à Felgueira e estar em Coimbra às 8 da manhã. Ao fim da manhã regressava para vir trabalhar). 
Nas consultas eu perguntava ao psiquiatra o que se passava com ela (esquecia as coisas, escondia coisas, tinha alucinações de bichos na comida, não dormia...) que exames poderia fazer. Ele apenas, repetidamente e de forma irritante, dizia que era normal, que o cérebro estava a ficar assim, mas que não era preciso exames ou medicação própria.
Perguntava se não havia exames ou diagnósticos... O sr. Prof. Dr.  X (não adianta revelar o nome de tão "douta" alma) dos HUC, em Coimbra, dizia que não era necessário. Tão pouco nos preparava ou avisava sobre o que viria no futuro.

Em Dezembro, os pais vieram passar o Natal e passagem de ano a minha casa. 
Quando chegou estava pior: andava sempre com um saco de roupa na mão a dizer que tinha de ir embora, não parava quieta e começava a esquecer os nomes das pessoas ou a repetir as coisas.
Quando lhe dizia que não ia embora e tinha de deixar o saco da roupa ficava amuada, como uma criança e até chorava.

2020-
Fui levá-los à Felgueira no dia 2 de Janeiro de 2020.
15 dias depois voltei lá para levar a mãe novamente a Coimbra ao médico e aconteceu o primeiro choque: a Mãe não me reconheceu e disse que eu me chamava Carlos, depois joão... fiquei sem chão. 
A mãe estava já sem a razão. 
Nesta fase passou a não dormir, sempre a mexer e a esconder as coisas. Via bichos em todo o lado: na comida, na pele, no ar. Fazia feridas no proprio corpo a tirar os pretensos bichos.

Durante o resto de Janeiro e o mês de fevereiro foi piorando diariamente. 
Eu estava a 150 kms e a ir lá muitas vezes. O pai já não dormia (andava sempre atrás dela toda a noite e dia, para ela não se aleijar).

O pai estava à beira do limite e eu a entrar em pânico.
Em Março a mãe atingiu o limite: chorava 24 horas, rasgava a roupa, não parava quieta e não dormia.
O país ia entrar em confinamento numa quarta feira e eu tinha de encontrar uma solução para tirar a mãe de casa. Se não o fizesse, o pai não ia aguentar. Ele estava sempre a chorar de desespero por não conseguir fazer nada por ela e não aguentar a pressão de ver o seu amor de uma vida naquele estado.

Com a ajuda de uma pessoa amiga, na terça feira antes do estado de emergência, consegui encontrar um Lar, em Oliveira de Azemeis (o único sitio onde consegui encontrar uma vaga). 
Visitei as instalações e gostei.
Na quarta, de manhã, deixei a mãe no Lar (eu, o pai e os tios). 
FOI O PIOR DIA DA MINHA VIDA. Tinha-lhe prometido que jamais a deixaria num lar... ela tinha-me pedido para não o fazer... e eu não consegui cumprir. Não tinha outra hipótese. Chorei com o coração rasgado e a alma num sufoco que não consigo descrever. Senti-me a pior pessoa do mundo, um traidor, um péssimo filho. Tive pesadelos com aquilo durante meses e meses. Acordava a chorar e a chamar por ela.

No inicio foi muito dificil. O país estava em confinamento e ninguem podia sair de casa. As visitas a lares e hospitais estavam proibidas.
Ia tendo noticias dela pelo telefone e algumas video-chamadas que faziam do lar.
A mãe encontrou no lar pessoas maravilhosas. Tratadoras e auxiliares de uma humanidade imensa.
A mãe, com o seu jeito dócil e o seu coração imenso, cativou toda a gente e era muito amada por todos... a Arletinha, como era carinhosamente chamada.

Na altura ela ainda me reconhecia nas vídeo chamadas e falava muito em mim, no pai e no zé e quase sobre todos.
Aos poucos, o meu coração amainou e aceitei que ela estava bem, com pessoas que a amavam e a tratavam bem. 

Entretanto, o país começou a ver as restrições da pandemia aliviadas e as visitas começaram a ser possíveis.
Passei a poder estar com ela todas as semanas durante meia hora, depois um pouco mais.
O estado de demência dela era cada vez mais acentuado e profundo.
Fazia meia hora de viagem para estar com ela e ela apenas aguentava uns 10 minutos comigo:
Ou não falava, ou não reagia, ou adormecia.... mas aqueles 10, 11 ou poucos minutos, eram os melhores momentos da minha vida.
Outras vezes estava mais desperta. 

Quando ia ao Lar fazia sempre uma video chamada para o grupo dos tios para eles poderem "estar" com ela e falar com ela. 
De vez em quando ela reconhecia algum deles, chamava-os pelos nomes: " meu Adriano, o meu Agostinho, o eu Manel..."
Outras vezes, cheguei a estar com ela durante uma hora, com a cabeça dela no meu peito, apenas com ela a dormir, sem reagir... apenas a dormir...
O cheiro dela, o rosto, o cabelo, o toque... cada milímetro e cada segundo eram os meus tesouros.


Em 2021 a demência ficou total, deixou de me reconhecer e de conhecer quem estivesse com ela. 
Visitava-a todas as semanas, pelo menos, e estava com ela ali uma hora... apenas a olhar para ela ou a tentar um diálogo que nunca tinha retorno... mostrava-lhe fotos, videos, musicas, cantava, acariciava-a ou apenas ficava a sentir as mãos dela nas minhas mãos...mas valia a pena cada segundo... todo o meu ser estava feliz por estar com ela, mesmo que ela não me reconhecesse.


Em 2022 ela ficou mais fraca. Teve uma infeção respiratória e recuperou, mas estava mais frágil, mais magra, mais curvada.
O olhar vazio e opaco... 
Mas a beleza dela.... aquela beleza imensa estava lá... sempre lá.
Sabes... a minha mãe sempre foi de uma beleza estonteante, por fora e por dentro.

Em Junho voltou a piorar da infeção respiratória e desta vez já não recuperou.

Um dia.... no dia15 de Junho, estou a trabalhar e recebo um telefonema do Lar, depois do hospital a dizer-me para ir lá porque ela estava na reta final......
Não sei como descrever o que senti. O meu mundo parou.

Fui ter com ela... entrei no hospital, nos cuidados intensivos e o médico disse-me para me despedir dela porque o corpo dela já não reagia à medicação e a qualquer momento ia tudo acabar.
Impossível, pensei eu... ela estava ali, serena, a dormir, a receber oxigénio, os sinais vitais estavam estáveis.... não queria acreditar. Era um pesadelo e eu ia acordar e tudo ia acabar bem....
Estive com ela nas últimas horas. 
Vim a casa descansar um pouco e tomar um banho.... Às 3 da manhã, o coração da mãe parou, no dia 16 de junho.
O meu mundo parou às 3 da manhã do dia 16 de junho de 2022.

Desde então o vazio cresce. Choro.... sim choro muito. Choro todos os dias, do nada. Acordo a chorar. Choro no trabalho, ao volante, enquanto estou só, enquanto vejo tv, enquanto leio... enquanto simplesmente respiro.
Porque a memória dela está sempre presente em todo o lado e em todos os momentos... e a dor da ausência só cresce e não se apazigua.

Vivi isto tudo durante a pandemia, os problemas e sobressaltos do meu trabalho (a minha equipa desceu de divisão em 2021, lutamos para subir em 2022).
Tive COVID em 2021 e passei muito mal, muito mesmo. Tive medo...Tive outros problemas de saude devido ao stress e exaustão.... passei por momentos em que não sabia onde me agarrar, cansado... mas bastava ela... bastavam aqueles minutos ao lado dela para tudo fazer sentido.
Ela, mesmo sem me reconhecer, sem me falar... foi sempre o meu porto seguro e a minha força maior.

Durante todo este período vivi uma revolta interior contra o mundo e contra uma Igreja a quem ela dedicou uma vida inteira enquanto catequista, ministra da comunhão e da celebração da palavra.

Sabes, a mãe sempre teve no fazer o bem aos outros como um dos objectivos de vida mais importantes.
Vivi essa revolta de a terem abandonado.
O padre da freguesia nunca me perguntou pela mãe, nunca visitou o pai. Nunca quis saber de nada.

Escrevi dois emails ao então bispo de Coimbra a relatar a minha revolta.
A mãe dedicou a vida dela à Igreja... e a "igreja" abandonou-a quando ela mais precisava de amor.

Da segunda vez o bispo respondeu-me a pedir desculpa. 
No dia seguinte o padre da paróquia ligou-me com as desculpas mais esfarrapadas, a prometer que a ia visitar e visitar o pai... mentiu. Nunca o fez ou teve intenção de o fazer... nunca.
A mãe faleceu... o dito padre fez o funeral e nem as condolências deu a mim, ao pai ou qualquer membro da família.

Foi assim este meu tempo que o mundo que eu conhecia há quase 50 anos acabou.

Desculpa ser tão longo.
Não espero nada de ninguém. Nem ajuda, nem amor, nem conforto.
Até porque nada faz sentido.... o que eu queria não tenho... a minha mãe.... o meu mundo.

Tentarei deixar um legado que a honre e a deixe orgulhosa.
Tentarei ser um pouquinho do verbo Amar que ela sempre foi.

Tentarei fazer o Meu mundo... à imagem do seu sorriso.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022


 

A MÃO QUE ME AFAGA O CABELO

 

 

“Naquela linda manhã, 

Estava a brincar no jardim,

A certa altura a mamã,

Chamou-me e disse-me assim...

Não brinques tão a correr, tropeças sem querer, depois ficas mal...”

 

Durante os anos deixamos de dar valor ás pequenas coisas que, sem saber, nos preenchem e nos moldam a alma, para depois, assaltados pela ausência, as recuperarmos como se o coração e a memória reclame uma resposta ao vazio que encontra dentro de nós.

 

Dizem que o tempo vai tentar levar o timbre da tua voz... não sei se irá conseguir.

De qualquer modo, guardo os inúmeros registos de vídeo que fizemos nos últimos dois anos. 

O tom é já fraco e ténue mas é o teu, inconfundivelmente quente e terno. Tenho pena não ter outros mais antigos.

O mesmo timbre que me embalava no teu regaço, ao compasso do amor de mãe, enquanto a tua mão me afagava o cabelo e o rosto debruçado no teu colo.

A tua voz, o teu cheiro, o teu jeito delicado... 

Desde as tardes de por do sol, nas areias da praia de Luanda, nas traseiras da casa, ou a soleira das escadas da entrada de casa em Santo Tirso, nas tardes de Domingo, enquanto esperávamos pelo pasteleiro que trazia os jesuítas para o lanche, ou as horas solarengas na Felgueira, sentados à entrada da cozinha. A musica era a mesma, o amor era pleno e a cumplicidade deixava-me rendido, menino de sua mãe, certo de que aquele era o meu paraíso e que o mundo se resumia aquele momento.

 

Procurei a tua voz nas ultimas horas enquanto te pegava nas mãos frágeis e já quase ausentes...No meio do choro compulsivo a adivinhar a dor que se aproximava cantei baixinho a mesma musica, agora contigo encostada ao meu ombro e as minhas mãos a devolverem o afago no teu cabelo fino e cinzento.

 

Não encontrei a paz do mesmo paraíso mas senti o teu cheiro, o teu toque e o teu amor.

 

Sabes, nunca te cheguei a contar, mas lia vezes sem conta os textos que escreveste, naquele caderno de capa preta e grossa, que guardavas no guarda-fatos do teu quarto, tentando desabafar a dor que sentiste quando a tua mãe, a avó Maria, partiu.

Ficava sem folego ao tentar perceber como tanto amor cabia dentro de ti e quanto podia doer uma ausência.

Devorei cada verso dos teus poemas, cada linha das tuas prosas. Conseguias descrever a dor, a saudade e o amor de uma forma tão crua mas também tão bela e doce.

Agora sinto eu o mesmo e não consigo encontrar as palavras para o que sinto.

Dizem que a poesia é a arte de encontrar os vocábulos certos para descrever sentimentos... sou fraco poeta porque me faltam todas as palavras para te dizer o que cá vai dentro.

Mas há uma coisa que sinto. Sim, eu tenho a certeza que sinto.

Sempre fui um medricas no escuro independentemente da idade. Sempre preferi a luz e claridade. Mas agora, menino frágil e perdido, não tenho medo do escuro.

Não tenho o teu colo e o teu cheiro... mas sinto a tua mão a afagar.me o cabelo todas as noites no silêncio, enquanto eu, só para mim, canto baixinho: 

“Naquela linda manhã, 

Estava a brincar no jardim,

A certa altura a mamã,

Chamou-me e disse-me assim...

Não brinques tão a correr, tropeças sem querer, depois ficas mal...”

terça-feira, 12 de julho de 2022


 Dizem que o tempo ameniza a dor, a ausência, a revolta... a saudade... Não.

Não só não ameniza como ainda é mais cruel... tenta ensinar-nos à força continuar a viver com essa ausência e essa saudade , tentando apaziguar a revolta pelo pietismo e resignação do “já nada há a fazer senão conformarmo-nos com esta situação infeliz”.
Dirão que apenas um mês é pouco.... Será sempre pouco para tanto que se ama.
Nunca o tempo será capaz de serenar a falta do cheiro, do toque, do sorriso em surdina, do olhar de ternura que encerrava no silêncio todo o verbo AMAR... do abraço e do carinho.
Sabem aquele cheiro do mimo de mãe, do regaço onde se recosta a cabeça em tardes de sol a ouvir histórias ou canções em encantar?
Sabem aquele toque da mão que nos ajeita o cabelo ou nos estica os lençóis ao deitar selando o mundo perfeito com um beijo de boa noite?
Sabem aquele brilho no olhar humedecido de felicidade quando, sem nada dizer, vos segredam que ttemos ali o maior amor do mundo?
O tempo não ajuda a aceitar a ausência e nunca consegue compensar o vazio.
Já passou quase um mês... e não há um segundo em que eu não espere involuntariamente ouvir, a qualquer momento, aquela voz a dizer: “Oh filho...” Oh Marco"
O tempo dar-me-á muitas vezes o “Marco”, o “Kito”, muitos abraços e sorrisos, que por mais ternurentos e saborosos sejam nunca terão o mesmo som, o mesmo sabor e o mesmo calor... aquele calor de minha mãe.
A voz.... a simples voz....a simples tonalidade e cor da voz deixou de se ouvir.... e até isso o tempo teima em fazer desaparecer da memória.
Imaginam a escala musical sem uma nota só? fazer todas as musicas mas faltar sempre aquela nota?....
O tempo tenta que o corpo e a mente se habitue a viver com uma amputação sentimental sem compreender que o cordão umbilical quando se corta no momento da nascença deveria ser o único acto de separação legitimo (mesmo assim doloroso).
A saudade (essa tão exclusiva palavra que embeleza o fado do português) só é bonita no papel e nos poemas.... Esse trágico sentimento de que sofrem os apaixonados poetas e os “amputados” sentimentais só parece mágica para quem a lê...
porque para quem a sente tem um sabor amargo e terrivelmente áspero.
O tempo não sabe quanto doi... o Tempo passa... sim, ele passa... nós ficamos agarradosàs raízes e aos vazios.

terça-feira, 13 de abril de 2021

 Quero um beijo que me cale a alma

Quero um abraço que me afague a mágoa

Quero uma fonte onde brota a água

Quero alguém tempestade... para uma tarde calma

 

De uns lábios que matem a secura

Que me devolva a frescura

 

Quero um corpo que acabe com esta fome

Quero um rosto que me olhe de perto

Que me diga se estou errado ou certo

Quero um pouco da vida que me consome

 

Uma sombra que me persiga

Uma presença amiga

 

Quero um segredo que grite alto

Umas mãos que me encontrem

Quero o amanhã e também o ontem

Alguém que me diga quando eu salto

 

Num precipício sem principio ou fim...

Alguém que salte por mim

 

Quero um pedaço de sexo sagrado

Com um corpo quente, numa pele fria

Uma noite eterna repetida de dia

Um anjo que saiba o que é o pecado

 

Quero tudo a que tenho direito

Uma cabeça adormecida no meu peito

 

Quero um minuto meu

Uma hora para estarmos sós...

 

Quero um beijo que me cale a voz.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O calendário dos afectos


 

Nunca temos tempo para nada.

Reclamamos constantemente que os nossos dias deviam ter 48 horas em vez das curtas 24 que o relógio nos oferece.

O tempo é curto para dormir, é curto para o trabalho e raramente se mostra suficiente para afectos ou para nós mesmos.

Somos absorvidos pela azáfama generalizada. Criamos um ritmo frenético em tudo sem nos apercebermos que não é o tempo que é curto... somos nós que o fazemos escasso e minguado porque acumulamos verbos mais do que conseguimos declinar e concretizar.

Nem temos tempo para darmos conta que não é a vida que é ingrata... a ingratidão parte de nós... somos nós que escrevemos e escolhemos a nossa vida.

O nosso calendário dos afectos, quando muito, fica bem definido a duas ou três situações anuais, que nos fazem, por alguns instantes dar algum valor ao que sentimos e ao que realmente importa... amar.

Corremos para ter tempo para o dia de aniversário. Lembramos que amamos no Natal, Páscoa e pouco mais... e mesmo assim enganamo-nos (conscientemente) de que realmente estamos a amar... mas não... estamos apenas a tentar encaixar o verbo amar num tempo reduzido a um presente, a um jantar ou almoço que foi comprado ou programado entre uma correria ou uma agenda sobrecarregado de afazeres.

2020 fez-nos descer um pouco à terra. Fez-nos reservar mais algum tempo para nós e para esse exercício difícil que é pensar e avaliar a  nossa vida.

Este ano, o Natal, a passagem de Ano vão ser tão diferentes... Tudo vai ser tão distante e frio. 

Andamos desgostosos e alarmados porque não teremos os nossos mais queridos juntos nas festas...

Mas já pensamos que há um ano, longe de imaginar que o mundo ficaria virado do avesso por causa de uma "chinesice" qualquer, quando decidimos calendarizar os afectos, talvez não o tenhamos feito a preceito?

Talvez porque não tivemos tempo para dizer, pensar, abraçar, amar, mimar e tantos outros verbos de afecto com o devido "calor" que pretendíamos. 

Hoje, como não temos o (ou os) que queremos, lembramos o (ou os) que perdemos ou desaproveitamos ontem.

Esta mania de calendarizar à pressa e limitar os afectos ao pouco tempo que conseguimos a custo arranjar... resulta depois neste peso na consciência, tão vulgar e humano, do: "se ao menos soubesse que ia ser assim tinha aproveitado mais, tinha amado mais, tinha abraçado, beijado..."

Não é a pandemia que nos rouba ou subtrai os afectos... somos nós.

Para amar, são precisos, pelo menos dois... e amanhã a equação pode estar reduzida a um... e o amor póstumo não nos preenche plenamente a alma.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Um sorriso do tamanho do coração




  Por vezes achamos que o sorriso é um simples esgar ou um gesto reflexo dos músculos da cara para preencher uns segundos e dizer em silêncio: “está bem”.

Mas o sorriso é provavelmente o abraço mais caloroso e reconfortante que podemos oferecer. É o espelho mais fiel do nosso coração e dos nossos olhos... é o beijo que não damos mas queremos dar, é toda uma enciclopédia de sentidos.. é um dicionário de amores e carinhos que resumimos naquele momento.

A minha tia Idilia tinha um dom... o dom de amar e de sorrir de uma forma especial. A idade separava-a da minha mãe (sua única irmã) mas o coração mantinha o cordão umbilical tão próximo como se de gémeas perfeitas fossem. Uma tinha, a outra tinha. Uma sentia, a outra também... uma sofria, a outra pressentia.

A vida foi dura com a minha tia e o destino tentou roubar-lhe por tantas e tantas vezes a felicidade e a  razão de viver... e ela sempre respondeu com este sorriso... o sorriso do tamanho do amar em hipérbole.

Perder duas filhas de forma trágica na flor da juventude, perder a mãe ainda nova, perder o irmão ainda novo, perder depois o pai... as doenças que se acumulavam, o retornar de África, o recomeçar... o trabalhar no duro... a tudo isto respondia com um sorriso único é tão belo de coragem e bravura. E tanto lhe doía lá dentro.

Acho que nunca a vi triste durante muito tempo. Tinha esse cuidado. Guardava com  um “egoísmo” carinhoso e caridoso as mágoas só para si para poder oferecer sempre o seu sorriso.

Todos os anos da minha infância e adolescência tinham reservado no calendário uma semana, nas férias grandes, em Coimbra, em casa dela.

Foi por causa dela e dos outros tios de Coimbra (Manel e Fátima) que me apaixonei por Coimbra. A magia que a Solum tinha para mim e os “Patinhas e Donalds” que me comprava na pequena livraria do bairro, nos prédios ao lado. As minhas aventuras na piscina ao lado do estádio do Calhabé.... as idas à baixa com ela e o tio Fabião.

Mais tarde, quando se mudou lá para cima, na ladeira da Santiva... aquela paisagem mágica sobre Coimbra, a “velha cabra” (o relógio da torre da universidade)a fazer-se ouvir lá na colina.

Era tudo tão perfeito quanto o seu sorriso fazia parecer.

Os seus beijos, os abraços, os mimos, os carinhos e aquele jeito tão mágico de ser. 

A serenidade do seu rosto só comparável ao da minha mãe e da minha avó Maria (a mãe delas) fazia-me sentir numa espécie de paraíso perfeito demais para um miúdo de 9, 10 ou 11 anos.

A vida foi-lhe dura... tão dura... mas ela sempre respondeu da mesma forma... não levantava a voz, não perdia a postura... não mostrava as lágrimas... apenas sorria. 

Sorria com um coração tão grande, capaz de abraçar o mundo inteiro no regaço quente e reconfortante de quem nasceu para amar todo o universo.

Eu não sei se vocês acreditam no céu, em Deus ou noutra coisa qualquer. Mas eu tenho a certeza que, se houver alguma coisa de bom para lá desta vida, a Tia Idilia está lá de certeza, agora ao lado do tio Fabião, a sorrir e pronta para amar o mundo.

Já não tenho os dias da Solum, nem o fim de tarde na varanda  na ladeira da Santiva... tenho o sorriso e o conforto que sinto cada vez que percorro aquela cidade e sempre que fecho os olhos e repito: “Amo-te tanto tia. Obrigado por me teres feito crescer assim e ensinado que o sorriso é sempre a perfeita  conjugação  do verbo amar.”

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O PAI NATAL EXISTE




Acreditar no Pai Natal até aos 9 anos de idade é obra. Eu acreditava piamente no homem das barbas grandes, vestido de vermelho e nos presentes (que eram apenas abertos na manhã, bem cedo, do dia 25) na arvore de Natal.

Estava-me nas tintas e nem sequer ligava ao que os outros miúdos lá da escola diziam em ar de escárnio sobre a "treta" que era o Pai Natal.

E quando me apercebi que afinal não havia nenhum habitante da Lapónia a distribuir presentes por avaliação de bom comportamento, confesso, não fiquei chocado ou me senti enganado.

Continuei a não achar piada nenhuma aos putos que "agnósticos do Pai Natal" porque as memórias que guardava daquela inocente ilusão eram (e são) tão perfeitas e puras que fazem parte do melhor da minha vida.

Valia a pena a ilusão do Natal personificada naquele velhote anafado que se esgueirava pelas chaminés.

 

A minha família sempre se regeu pelos princípios nobres de sermos pobres, mas honrados. As dificuldades eram as dos comuns portugueses que retornaram do ultramar e tiveram de fazer das tripas coração nos finais dos anos 70, nos anos 80 e até aos 90.

Nada abundava a não ser a felicidade, o carinho, a boa disposição, a educação e os melhor valores e princípios.

Pouco mais havia do que uma tv a preto e branco (com um plástico colocado no ecrã para simular cores). Havia o canal 1 e o canal 2. A abertura e o fecho da emissão com direito a hino nacional e à mira técnica da RTP. Havia a Cornélia, a Gabriela, a Escrava Isaura, o festival da canção, o Bonanza, o 1,2,3 e os jogos sem fronteiras... e havia uma felicidade imensa e difícil de explicar.... mas disso, um dia falarei, de como os jesuítas que o pasteleiro vendia, porta a porta nas tardes de sábado, faziam o fim de semana ser um luxo maravilhoso.

Havia as idas à aldeia, de comboio (Santo Tirso - Lousado, para mudar de linha; Trofa - Campanhã; Campanhã - Pampilhosa e depois Pampilhosa-Mortágua... Uma odisseia que ainda tinha direito a viagem de autocarro de Mortágua até à aldeia, por entre aquelas curvas que já havia decorado, pintadas de mimosas e pinheiros.

Havia a festa da aldeia em Agosto, a Páscoa.... mas o Natal.... Ah o Natal. Esse era o momento da minha curta e simples vida.

Em Santo Tirso, a avó Laura e o avô Zé enchiam-me de mimos, já com ciúmes dos avós na Felgueira, não fossem eles darem-me mais beijos e abraços do que eles.

Na aldeia, o Natal era sempre mágico. O frio tinha sabor a lenha da lareira, tinha sabor a café de saco feito pela manhã, misturado com o leite. Tinha cheiro a broa acabada de cozer, barrada em manteiga.

O natal tinha a música dos ventos nos pinheiros, tinha um brilho especial naquelas luzinhas da arvore de Natal acabada de ser arrancada à terra ali ao lado.

O Natal cheirava a "bolo de cornos" fresco, a aletria e a sonhos com mel e canela.

O Natal sabia a batatas com bacalhau, ovo e couves.... inundados naquele azeite puro e caseiro onde depois mergulhava a broa até a deixar a pingar.

"Pareces uma coruja a beber azeite", dizia a avó Maria a sorrir.

A ceia de Natal, para mim, sempre foi o momento mais importante do ano. Se há magia num dos 365 dias do ano é naquelas 24 horas do 24 ao 25 de Dezembro.

O cheiro, o sabor, os sorrisos, os abraços, os bolos, as guloseimas.... tudo parece mais doce e perfeito.

O pior era dormir. Conseguir fazer abrandar o ritmo cardíaco que teimava em acelerar à espera da manhã de 25 para saber o que o Pai Natal deixara na arvore.

Não importava se eram meias, se eram um simples carro de plástico ou um saco de rebuçados. Nunca me preocupei porque nunca recebi carros telecomandados, bicicletas ou coisas caras e fantásticas....

Para mim, o mágico era o acordar de manhã a correr e desembrulhar aquele papel e aqueles laços e... naqueles 2, 3 minutos, me sentir a pessoa mais feliz no universo.

O Natal era o meu paraíso, o meu auge de vida, a razão de andar um ano inteiro à espera por aquela noite, por aqueles cheiros e sabores.

Na minha inocência, não sabia o esforço que os meus pais faziam para eu ter aquele carro de plástico ou aquele brinquedo barato ou aquele estojo de canetas de cor. A minha felicidade era tanta que nem eu queria saber se era simples ou se tinha sido caro.... um saco de caramelos chegava.

Mas os meus pais, tantas vezes tiraram da boca deles para dar aos filhos.... e mesmo com um esforço sobre-humano davam tudo o que tinham para fazer aquele miúdo (e ao meu irmão) feliz.

 

 

Nos dias de hoje, com estas tecnologias de ponta, com tudo "smart", ou smartphone, as smart tv.... faz com a infância seja também "smart"... a geração smart. Por isso acreditar no Pai Natal é para miúdos ainda sem o chip smart activado pelos pais que talvez sentem o mesmo que eu sentia... 

Os miúdos já vêm avisados no seu ADN de que Pai Natal não passa de uma publicidade da Coca-Cola e que cal aos pais darem aquela prenda última geração. Já não se escrevem cartas para o Pai Natal...

Agora faz-se a arvore de Natal com pompa, enche-se a casa de luzes (que perduram até fevereiro na preguiça de arrumar tudo de novo nas caixas) e a ceia de Natal é... o que for e os miúdos gostarem.

 

Para mim... continua a saber a bacalhau afogado em azeite caseiro, continua a saber a abraço caloroso e a cheirar a lenha e a frio. As luzes nas ruas continuam a ser mágicas (por mim aprovava um decreto que as deixava ligadas o ano todo).

O Pai Natal.... não sei que idade terá.... mas existe.... eu sei que existe. Afinal eu vi-o em carne e osso, quando fui a Rovaniemi, na Lapónia, nos meados dos anos 90, já eu pré-adulto. Eu falei com ele... por isso não me venham com tretas agnósticas. O Pai Natal existe. Já não dá prendas por bom comportamento porque se calhar já não tem idade para andar a distribuir tantos presentes por homens de meia idade.... mas existe. Tal como o Natal existe.... essa noite com sabor a felicidade.

 

O último Natal passei se a aldeia... sem o Pai Natal de manhã..., mas passei-o com os meus pais... e querem saber de uma coisa? A melhor prenda que tive foi aquele sorriso mágico com sabor a tudo.

Este ano vai ser diferente... Eu sei..., a porcaria da doença, das pandemia, das distâncias do raio da injustiça da vida que nos tira o pouco que temos e que queremos conservar....

Queria ter o abraço e o imo da minha mãe, ainda que distante da realidade e do conhecimento.... queria ter o prazer de dividir o azeite e o alho cortado fininho sobre as batatas e o bacalhau com o meu pai, brindado a um bom vinho... queria ter aquela foto com a legenda: "ESTE É O DIA MAIS FELIZ DAS NOSSAS VIDAS". Queria tê-los... ali... só ali... com árvore, as luzes e o sabor a Natal...

Mas ainda assim acredito que o Natal é o melhor dia do calendário... e que Pai Natal me vai oferecer esse sabor...